Existe um momento que muita gente conhece e que quase ninguém sabe nomear.
Você faz uma pergunta numa reunião. A frase está correta, o vocabulário está certo, a pronúncia passa. E alguma coisa se fecha. Nenhuma careta, nenhuma correção, nenhuma palavra fora de lugar: só meio segundo de silêncio a mais, e depois a conversa seguindo ligeiramente ao lado de você.
O primeiro impulso, nesse instante, é botar a culpa no próprio francês. É um diagnóstico errado. A frase estava boa, e aconteceu outra coisa.
É exatamente disso que Parler français ne suffit pas trata do começo ao fim, e é o primeiro livro que eu vejo explicar isso direito.
Quem escreveu
O livro é assinado como Maison Française e publicado pelo selo Le Salon Jaune. Por trás dos dois nomes está Lê Thi Mai, parisiense, diretora de estratégia editorial e consultora de narrativa de marca.
A formação dela explica boa parte do livro. Ela passou pela hypokhâgne e pela khâgne, os dois anos de preparação em humanidades famosos pela dureza, que na França levam ao concurso de entrada da École normale supérieure, e depois estudou literatura moderna na Sorbonne.
Ela faz questão de dizer que não é professora de francês. « Je ne donne pas de cours de français. La langue est un outil. » Não dou aula de francês, a língua é uma ferramenta. No site dela a promessa cabe em duas frases: « Certains veulent simplement mieux parler. D'autres veulent trouver leur place. »
O estalo, pelo que ela mesma conta, veio do próprio aprendizado de idiomas. Durante muito tempo achou que falar uma língua era dominar gramática, vocabulário e pronúncia. Aprendendo outras línguas, percebeu que o difícil estava em outro lugar. Nas palavras dela: « Le plus difficile, c'était de comprendre ce que les mots ne disent pas. » O mais difícil era entender o que as palavras não dizem. Por que certas pessoas parecem frias quando são apenas discretas. Por que uma resposta educada pode ser uma recusa. Por que um elogio pode soar excessivo.
Dessa intuição nasceu o livro, e do livro nasceu a Maison Française.
O que o livro quer transmitir
A tese cabe em duas frases, e quem as escreve é a própria quarta capa: « La conversation française n'est pas seulement un échange. C'est un système social invisible. » A conversa francesa não é só uma troca, é um sistema social invisível. As palavras são apenas a parte visível dele.
A partir daí o livro descreve o que corre por baixo:
- o implícito, ou seja, tudo o que é comunicado sem ser formulado;
- a hierarquia invisível, que decide quem pode dizer o quê, e em que tom;
- os subentendidos culturais, que pressupõem um saber compartilhado que ninguém enuncia;
- a arte francesa de matizar, que é uma habilidade própria e não uma hesitação;
- a discordância elegante, ou seja, como desaprovar sem nunca se colocar do lado errado;
- e as frases que nunca significam exatamente o que dizem.
O método é concreto: situações, diálogos do cotidiano, uma leitura detalhada de como as posições se acertam dentro de uma conversa comum. Nada de teoria sociológica olhando de cima, ainda que o assunto seja sociologia.
Com a mesma clareza o livro diz o que não é, de novo na quarta capa: « Ce livre ne vous apprendra pas le français. Il vous apprendra ce qui se joue réellement derrière les mots. » Este livro não vai te ensinar francês. Vai te ensinar o que acontece de verdade por trás das palavras. Uma promessa mais estreita que a de um método, e muito mais útil.
Ele se dirige aos estrangeiros que vivem na França, a quem trabalha em ambiente internacional, aos casais interculturais e a qualquer pessoa com aquela sensação teimosa de que « il y a quelque chose », de que tem alguma coisa ali, sem conseguir dizer o quê.
Vale dizer uma palavra sobre o risco evidente de um livro assim, até porque ela mesma trata de desarmá-lo. « Décrire une culture n'est pas demander qu'on l'adopte », escreve ela: descrever uma cultura não é pedir que ela seja adotada, é torná-la legível para que cada um encontre seu lugar sem abrir mão do seu. É exatamente o tom do livro. Nenhuma caricatura dos franceses, nenhuma ordem de virar um.
A tarja embaixo do título diz sem rodeio: « Les codes invisibles qui décident de ta place en France. » Os códigos invisíveis que decidem o seu lugar na França. Repare no verbo. Eles não influenciam o seu lugar, eles decidem.
O que isso muda quando você aprende vocabulário
Eu construo um aplicativo de vocabulário, então tenho um viés e prefiro colocá-lo logo na mesa.
O livro me confirmou principalmente uma coisa que eu repito há dois anos: vocabulário de iniciante é genérico, vocabulário avançado é pessoal. No começo todo mundo precisa das mesmas duas mil palavras. Depois do B2 ninguém precisa mais das mesmas, porque as palavras que faltam são as do seu trabalho, dos seus amigos, das suas reuniões.
O livro acrescenta uma camada que eu nunca tinha formulado com essa nitidez. Passado o B2, o problema muitas vezes não é mais qual palavra, e sim qual dose.
Pegue três jeitos de discordar: « je ne suis pas d'accord », « je ne suis pas sûr d'avoir tout suivi », « c'est intéressant ». Não concordo; não tenho certeza de ter acompanhado tudo; é interessante. Entre elas não há nenhuma diferença de nível, são três frases que um A2 entende. A diferença é inteiramente social, é enorme, e ninguém ensina isso em lugar nenhum.
Esse é também o limite honesto do livro, e a razão de ele combinar tão bem com trabalho de vocabulário. Ele te dá o sistema. Não te dá o seu estoque de fórmulas, e nem precisa: esse estoque é pessoal, você vai juntando nas suas próprias conversas, uma expressão por vez, no momento em que você a ouve e finalmente entende o que ela queria dizer.
Três artigos daqui prolongam bem a leitura: onde o informal vira grosseria, as palavras de preenchimento em francês, que são a outra metade do som natural, e quase como um falante nativo sobre o que sobra quando a gramática já está resolvida.
Veredito
Você acha que está faltando francês, quando o que está faltando são as regras do jogo. O livro coloca essas regras na mesa, sem folclore e com um carinho verdadeiro pela língua.
Durante a leitura você concorda bastante, com a sensação de estar lendo coisas que no fundo já sabia. Aparece depois: as situações que ele descreve voltam a acontecer, só que dessa vez você as reconhece enquanto estão acontecendo. É a melhor coisa que se pode pedir a um livro assim, e é também por isso que eu recomendaria ler devagar.
A quarta capa resume melhor do que eu saberia: « Comprendre les mots est une chose. Comprendre ce qu'ils veulent vraiment dire en est une autre. » Entender as palavras é uma coisa. Entender o que elas querem dizer de verdade é outra.
Se você mora na França, se trabalha com a França, ou se simplesmente volta sempre aquela sensação de que está faltando uma informação que todo o resto da mesa já tem: leia.
Lê Thi Mai, Parler français ne suffit pas. Les codes avant les mots, Le Salon Jaune, 371 páginas. ISBN 978-2959613326. Na Amazon em brochura e em edição Kindle.
Entender os códigos é metade do trabalho, ter as palavras na hora certa é a outra metade. Vokabulo ajuda você a guardar as expressões que ouve de verdade, em frases inteiras em vez de pares de palavras. Disponível para iPhone e iPad.